O gênero de super-heróis há muito tempo deixou de ser um conjunto homogêneo de narrativas. Ao longo de setenta anos – comemorados agora em 2008, em virtude do aniversário de criação do Superman – muitos conceitos foram revistos e novas idéias surgiram na forma de novos personagens ou reformulações daqueles que já existiam.
Um dos pontos cruciais dessa trajetória foram os anos 80, quando uma nova geração de autores – alguns deles de fora dos EUA – promoveu um movimento que foi chamado de “desconstrução” dos super-heróis. Obras como Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, e Batman: O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, apresentaram ao leitor heróis menos idealizados envolvidos com problemas mais próximos da realidade, como conflitos militares e terrorismo. Personagens moralmente ambíguos habitavam um cenário em tons de cinza, sem certezas absolutas sobre o bem e o mal.
Muitas revistas seguiram, e ainda seguem, esta tendência. Talvez como alternativa, surgiu nos anos 90 um estilo de publicações avessas a todo esse pessimismo, optando por um resgate dos valores “clássicos” dos quadrinhos de super-heróis. Pode-se dizer que séries como Astro City, de Kurt Busiek, trouxeram a “reconstrução” dos super-heróis.
Mas entre estes dois extremos do gênero existem outras possibilidades, inclusive algumas que mesclam elementos destes dois estilos. No final da década de 90, por exemplo, a editora WildStorm apresentou o Authority, um grupo de super-heróis com um estilo tradicional, mas com atitudes extremas. Agindo numa escala inimaginável, a equipe se dispunha a eliminar ameaças de forma sumária antes que o pior acontecesse.
A mesma editora também publicou Planetary, de Warren Ellis e Joe Cassaday, uma equipe de “arqueólogos do desconhecido” em busca de desvendar os segredos do século XX. Recheado de referências da cultura pop, a série tem uma temática complexa a respeito do que é a realidade e dos poderes que a disputam. Na verdade, de tempos em tempos assistimos a criadores de quadrinhos tentando dar um novo sentido a esse gênero tão significativo.
O roteirista Warren Ellis, mencionado acima, é um destes visionários. Sua mais recente criação publicada no Brasil é Nova Onda: Agentes do Ó.D.I.O. A princípio a série parece ser uma sátira dos super-heróis da própria Marvel, editora do material original, mas a maneira de Ellis retratar os super-seres tem muitas semelhanças com o contexto dos quadrinhos da Marvel nos últimos anos.
A começar pela relação da equipe de heróis com a agência que os reuniu e financiou, uma versão caricata da S.H.I.E.L.D. Depois de descobrir que o Ó.D.I.O. era financiado por uma organização terrorista, a equipe passa a lutar contra a agência, enfrentando todo tipo de armamento high-tech que se possa imaginar, chegando aos mais absurdos. Apesar das piadas e todo carnaval em volta do enredo, a idéia de que o vilão se disfarçava de mocinho desde o princípio e de que os valores em que a equipe se baseava eram relativos é evidente. E esse mesmo sentimento vem tomando conta do Universo Marvel desde a Guerra Secreta de Nick Fury.
Aliás, Fury é “homenageado” em Nova Onda com o impagável Dirk Anger (a similaridade entre os nomes, pricipalmente o significado deles, furia e raiva, já dá o tom da paródia). O comandante do Ó.D.I.O. talvez seja a maior crítica de Ellis às convenções do gênero dos super-heróis. Beirando o ridículo, Anger faz de tudo para liquidar o grupo rebelado, a ponto de não existir mais nenhum outro propósito para seu Órgão de Destuição os Inimigos da Ordem. É a preservação do status quo por si só, sem nenhuma outra razão, que sempre dá as caras nas revistas de super-heróis convencionais.
Em uma entrevista publicada recentemente na revista Wizmania, o roteirista dos Novos Vingadores, Brian Michael Bendis, declarou que Nova Onda trazia muitas idéias que ele gostaria de realizar na sua revista durante a saga Guerra Civil. Analisando bem, há muito em comum entre a Nova Onda e Os Novos Vingadores.
As duas equipes são formadas por heróis do segundo escalão (ou abaixo...), que nunca tiveram grande destaque e são afetados por isso. As dificuldades de relacionamento e o esforço para terem uma boa atuação conjunta nas missões deixa de ser o mote apenas dos primeiros arcos para ser um problema constante na vida dos dois grupos. A diferença entre as duas séries é que em Nova Onda isso é tratado como uma fator cômico, enquanto que em Novos Vingadores, relacionado com os enventos recentes da Marvel, tudo começa e termina em tragédias (A Dinastia M e a Guerra Civil).
Em Novos Vingadores também há a questão das divergências com o próprio sistema quando se revelam os eventos que levam à Guerra Civil. Os planos de Tony Stark e sua divergência com o Capitão América, a Mulher-Aranha agindo com agente tripla para Nick Fury, tudo isso gera um clima de tensão entre os membros que afeta as estruturas da equipe.
Quando a Nova Onda começou a ser publicada, todos esses acontecimentos no Universo Marvel ainda eram apenas uma ameaça no horizonte, uma tendência que ainda não podia ser sentida claramente. Aí vemos o poder de visualização de um autor como Warren Ellis e entendemos o que de fato é essa Nova Onda. Talvez por ser um retrato tão preciso da situação atual dos heróis Marvel e conter fortes críticas aos super-heróis, a série logo perdeu seu espaço e foi cancelada.