A História do Brasil Segundo Ernesto Varela

Apesar de ser uma idéia simples, não é tão óbvio o fato de que as perguntas movem o mundo. O Charada, que vive aqui pelo site respondendo dúvidas, sabe mais do que ninguém a importância de um ponto de interrogação. Quando perguntamos algo à alguém, ou mesmo a nós mesmos, estamos no ponto de partida para descobrir algo novo. Formulamos um problema, não de forma depressiva, lamuriosa, mas de pró-ativamente, já em busca de uma solução.

Ninguém tem todas as repostas, nem precisa ter. Saber fazer as perguntas certas, isso sim é o maior sinal de inteligência. No livro de Amelie Nothomb, A Higiene do Assassino, temos o texto praticamente todo escrito em diálogos, uma troca inteligente de perguntas e respostas, pois, para a autora, essa é a forma escrita que mais se aproxima da tortura. Uma pergunta bem formulada, por mais que não traga a resposta desejada, sempre vai significar algo. Mesmo o silêncio da pessoa a quem é dirigida a pergunta pode "dizer" mais do que qualquer resposta.

Esse é Ernesto Varela, um homem que sabe fazer as perguntas certas. Provavelmente, se você tem menos de 30 anos, se lembra vagamente das Diretas já e menos ainda desse personagem criado por Marcelo Tas e Fernando Meirelles.

Varela era um repórter independente que, com seus óculos de armação vermelha, saia com o seu fiel câmera Valdeci e se enfiava em todo tipo de lugar para fazer justamente as perguntas que todo mundo tinha na cabeça mas não tinha coragem ou não podia fazer. As melhores entrevistas do personagem certamente são as envolvendo questões políticas. Enquanto a grande maioria dos repórteres ficava presa nas mesmas perguntas de sempre, deixando de lado as questões mais importantes por ordem dos chefes das emissoras, Varela conseguia, de bate-e-pronto, chegar em uma figura polêmica como Paulo Maluf e perguntar: "Andam dizendo por aí que o senhor é corrupto, é verdade?"

Hoje, apesar da mídia ser teoricamente mais livre e poder espalhar todos os escândalos sem serem presos, torturados ou mortos, ainda temos poucas pessoas com a coragem o suficiente de fazer a pergunta certa. Em um momento aparentemente tão crítico da política brasileira, com as eleições acontecendo, mais do que nunca temos que rever a nossa história e, ninguém melhor que Varela para nos conduzir por ela.

A peça pode ser classificada como uma performance multimídia, pois usa vídeos, internet, web cam, além da atuação e de uma interação direta com a platéia. Contudo, como o próprio personagem diz, ela é, na verdade, uma palestra sobre como o país chegou nesse ponto em que estamos.

Entre as várias observações relevantes feitas uma das melhores é a comparação da história do Brasil com um conto de fadas (que está mais para um conto de bruxas) e o fato de que os anos se passaram e nada efetivamente mudou. Acompanhamos com Varela um momento crítico da política, a mudança do regime militar para a democracia e vemos que os mesmos personagens continuam em cena, podem ter mudado de lado várias vezes, conforme lhes foi interessante, aliados viraram inimigos, mas, continuamos o mesmo país que sempre fomos, desde que fomos colonizados. Como diz Varela, nesses últimos vinte anos, a única coisa que mudou em Brasília foi a cor do bigode do Sarney.

No geral, quem mora em São Paulo, ou vai passar pela cidade até 26 de novembro, veja a programação e o endereço no site "Como Chegamos Aqui?" e assista a palestra. Ela vale tanto como registro histórico, quanto como ponto de reflexão. Aliás, para aqueles que tiverem a oportunidade, todas as quintas depois do espetáculo rola um debate muito bem organizado sempre por um convidado especial.

Não percam, porque só vendo como chegamos aqui podemos descobrir para onde ir.

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