Desafiador

O Desafiador (Deadman) estreou na edição 205 de Strange Adventures, de outubro de 1967, com a história “Who has been lying in my grave?”. Os autores eram Arnold Drake (roteiro) e Carmine Infantino (desenhos). Diz a lenda que no final de expediente de uma sexta feira, num momento em que a revista corria o risco de ser cancelada, o editor Jack Miller chamou Drake e lhe pediu um novo personagem que fosse uma última tentativa de salvar a publicação. Na segunda de manhã o roterista chegou com a idéia de uma das mais inustadas séries dos anos 60.

O protagonista, Boston Brand, era um trapezista de circo que fazia às vezes de capataz da jovem proprietária, Lorna. Boston parecia um sujeito estúpido e meio arrogante, mas por trás da fachada de durão, se escondia uma alma nobre. Com esse comportamento, Brand conseguiu fazer muitos inimigos. No meio de uma apresentação, Boston foi baleado e morto. No pós-vida, a entidade Rama Kushna lhe concede a capacidade de possuir o corpo dos vivos e caminhar entre os mortais até que encontre seu assassino. O curioso é que nunca o leitor viu ou ficou sabendo quem foi o assassino, criando um dos mais marcantes mistérios das histórias em quadrinhos e aumentando o carisma do personagem.

O personagem estava relacionado ao interesse que os anos 60 criaram pela filosofia oriental, real ou ficcional, fruto da cultura hippie. No entanto, o produto final não era tão convencional quanto a maioria do que circulava na mídia em geral e teve que ser editado sem o selo do Comics Code Authrorithy, tornando sua publicação um projeto editorial arriscado. Os pedidos de uma tiragem relativamente pequena por parte das distribuidoras demonstravam o receio que causava uma nova série em que o protagonista morre no primeiro número.

A série original de onze edições de Deadman aumentou a lista de grandes personagens lançados pela DC nesta revista. Strange Adventures era um título antológico que se manteve no mercado durante 244 ediciões, desde setembro de 1950 até setembro de 1973. Entre os personagens que circularam em suas páginas estão Capitão Cometa (ed. 09 a 49), Museu Espacial (ed. 104 a 161), Homem-Animal (ed. 180 a 201), Adam Strange (ed. 217 ao final). Alguns dos criadores que trabalharam na revista foram Steve Ditko, Mike Kaluta, Gil Kane, Joe Kubert, Gray Morrow, Mike Sekowsky, Murphy Anderson e Alex Toth. Desde sua segunda parte, Deadman foi desenhada por Neal Adams.

Durante a Era de Prata, a DC manteve no mercado diversas publicações, tanto antológicas como específicas de um personagem, cuja temática predominante era a fantasia, o sobrenatural e os personagens místicos, com um desenvolvimento diferenciado dos quadrinhos de super-heróis convencionais, tanto nos argumento quanto na arte. Entre os títulos desta linha estavam House of Mistery (312 edições entre 1951 e 1983) e House of Secrets (154 edições entre 1956 e 1978 e na qual surgiu o Monstro do Pântano de Len Wein e Bernie Wrightson, em 1972). Entre os personagens que eram publicados estavam Dr. Destino e O Espectro antes de ganharem seus títulos próprios.

A série do Desafiador insere-se, portanto, na Era de Prata não apenas do ponto de vista cronológico, mas também estético e ideológico. Identifica-se com o aspecto de renovação que muitos títulos da época na DC proclamavam.

Durante os anos seguintes, assim como aconteceu com quase todos os personagens místicos da DC, o Desafiador tornou-se um adorado coadjuvante para os super-heróis, aparecendo sempre em meio a grandes crises cósmicas. Com essas participações, o Universo DC ganhou uma dimensão muito maior e mais rica para estas sagas. Porém, enquanto todos os outros personagens eram retratados de maneira muito séria e cheios de responsabilidades metafísicas, Brand era um sujeito sarcástico que ajudava a lembrar que os mortais têm razões sentimentais que desencadeiam grandes eventos, muito mais que a vontade dos seres superiores que habitam aquele universo.

Vale destacar a participação de Boston na minissérie Os Livros da Magia e em Reino do Amanhã, além dos diversos encontros com o Batman, que criaram ao longo dos anos uma identificação muito grande entre a cronologia dos dois personagens. Mais recentemente, o Desafiador esteve presente também em Asa Noturna – Ano Um. Neste arco escrito por Chuck Dixon, Dick Grayson volta para o circo onde foi criado e este é o mesmo onde Boston vivia. Em seu lugar está seu irmão, usando o mesmo traje para as apresentações. No entanto, Dick descobre que este traje foi criado por seu pai, anos antes de atuar com a esposa e os filho no trapézio, e era azul. Assim, após encontar o Desafiador, Grayson sente-se impulsionado a adotar o mesmo uniforme para atuar como Asa Noturna. No final descobre-se que Boston estava espionando Dick a pedido de Bruce Wayne.

Em 2001, especial Dead Again marcou o retorno e uma nova fase na existência da personagem. Escrita por Steve Vance, a nova saga mostrou a participação de Deadman em quatro tragédias marcantes ocorridas no Universo DC: a morte de Barry Allen, o segundo Flash, em Crise nas Infinitas Terras; a morte de Jason Todd, o segundo Robin, pelas mãos do Coringa; a morte do Super-Homem, decorrente de seu confronto contra Apocalypse; e a destruição de Coast City, que resultou no enlouquecimento de Hal Jordan, o Lanterna Verde. Todos estes acontecimentos estão, de certa forma, ligados, fazendo parte das manipulações de um grande vilão.

 

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