Personagens

A saga do Homem-Animal no Brasil – Parte 1

Por Amálio Damas Jr.

Ele apareceu pela primeira vez como coadjuvante numa história pré-crise (nas infinitas terras) da Mulher-Maravilha publicada na antiga Heróis em Ação, uma das primeiras revistas da DC publicadas pela Edita Abril. Quem diria que o ridículo homem com poderes de animal seria um dia sucesso de vendas? Mas foi isso que aconteceu com Buddy Baker, codinome Homem-Animal. Ele estava esquecido e desmoralizado no limbo do Universo DC quando um escocês maluco desafiou a editora e disse que ia transformar esse herói em sucesso de vendas.

O maluco em questão, Grant Morrison, na época era somente o criador de Zenith (publicado no Brasil pela finada Pandora Books em quatro volumes), conhecido apenas pelos leitores da revista britânica 2000 AD. Ele cumpriu o que prometeu com o Homem-Animal, depois escreveu Asilo Arkhan e o resto é história. Fui um dos felizardos que compraram a excelente revista DC 2000 lançada em janeiro de 1990 e que em seu terceiro número, trouxe estampada na capa a imagem do Homem-Animal, desenhada pelo talentoso Brian Bolland.

“Mas peraí, você comprou apenas pela capa?” perguntam vocês aí do lado de lá da tela e eu respondo: comprei sim, porque na época não tinha internet e as notícias dos EUA eram pra uns poucos privilegiados que compravam a Wizard americana que custava os tubos, ou você acha que a internet, os sites especializados e as revistas especializadas nasceram junto com o Superman? Fiquei meio cabrero, mas como estava acompanhando e gostando de Checkmate e Mulher-Maravilha da fase Pérez, mandei ver. Depois de algumas edições, fiquei fã da série e nem queria saber do resto da revista (na verdade queria sim, só escrevi isso para acrescentar um pouco de dramaticidade).

Fiquei tão fã dessa série, que agora me arrisco a escrever algumas resenhas sobre a carreira desse bizarro super-herói, comentando as 27 edições escritas pelo escocês, bem como a fase posterior lançada no Brasil, criada por Peter Milligan e a última desenvolvida por Rick Veitch, que infelizmente ficou incompleta em terras tupiniquins.

Capítulo 1 – O Zoológico Humano

Argumento: Grant Morrison
Desenhos: Chas Truog
Arte-Final: Doug Hazlewood
Lançamento original: Animal-Man nº 1 – 1988
Publicação no Brasil: DC2000 nº 3, março de 1990, Editora Abril e num encadernado lançado pela Editora Brainstore.

A história começa com uma seqüência narrada em off por uma personagem misteriosa que caminha em direção a cidade de San Diego e no final solta a frase enigmática: “Por que tivemos que descer das árvores?”. Em seguida somos apresentados ao Homem-Animal na sua identidade civil, Buddy Baker, tentando salvar o gato da vizinha que subiu numa árvore. A vizinha o alerta para tomar cuidado, pois o tombo pode ser feio e é nessa hora que temos a primeira amostra dos poderes do nosso herói. Como previu a vizinha, Buddy escorrega e começa a cair da árvore, mas no meio do caminho ele rodopia agilmente e cai de cócoras com o gato são e salvo em um dos braços. Ué, ma como Bátima? Simples, ele absorveu a capacidade de equilíbrio do gato.

É isso mesmo, o poder do Homem-Animal é absorver as habilidades dos animais que estiverem mais próximos. Meio ridículo não é mesmo? Pra mim e pra você que somos uns manés sem imaginação sim, mas não para o doido do Morrison, que durante a sua passagem pelo título mostrou que é totalmente plausível esse poderzinho mequetrefe. Voltando à história, a explicação que Buddy dá para a vizinha é que seu treinamento como dublê o ajudou a cair de pé. Nos quadrinhos seguintes somos apresentados à família de Buddy, sua mulher Ellen, seu filho Cliff e sua filha Maxine. Primeiro Buddy diz a sua esposa que vai ser super-herói em tempo integral e entrar pra Liga da Justiça. Sua mulher incrédula, diz que acha uma roubada porque ele gastou oitocentos dólares no uniforme e só utilizou-o por seis vezes nos últimos oito anos e continua dizendo que, se não fosse seu emprego de desenhista de produção, eles não conseguiriam sustentar a família, porque mesmo como dublê Buddy não conseguia uma atividade permanente.

O interessante neste diálogo é que eles mencionam a participação de Buddy no grupo dos Heróis Esquecidos durante a Crise. Pra quem não lembra, os heróis esquecidos participaram dos capítulos 11 e 12 da mãe de todas as sagas Crise nas Infinitas Terras e sua formação era: Delfim, Capitão Cometa, Adam Strange, Rip Hunter, Cavaleiro Atômico e Homem-Animal. Grant Morrison, quase no final da saga, explica para onde vão os heróis esquecidos de forma muito interessante. Nesse momento Cliff, o filho mais velho, um pré-adolescente rabugento, chega de mansinho e ouve um pouco da conversa. Ellen chama sua filha Maxine, que estava desenhando no andar superior da casa, para almoçar. Ela desce as escadas e mostra para o pai um desenho que fez de uma árvore, um macaco e um homem que ela chamou de Tarzã. Parece um simples desenho, mas não é, essa menina é tipo um Walt (pra quem assiste Lost) e as coisas que ela faz sempre terão alguma repercussão mais adiante.

Depois disso, mais uma seqüência de três páginas e dezoito quadros com a figura misteriosa, num beco escuro, divagando e atacando um pobre assaltante que o confundiu com um incauto qualquer. Quem será esse cara?

Buddy e Ellen voltam a conversar, ela pede desculpas e ele anuncia sua decisão de começar a treinar no dia seguinte para ser super-herói. Em seguida a história é dividida em 6 dias.

Dia 1: Ellen aparece num lago e avisa a um senhor que pescava que ele não conseguirá pegar nenhum peixe, pois seu marido assustou todos. O homem incrédulo diz não ter visto o marido dela, nisso ela o chama, ele aparece emergindo das águas e perguntando se ela cronometrou seu tempo embaixo d’água, deixando o pescador de boca aberta.

Dia 2: Buddy absorve os poderes de um pássaro e sai voando, mas se empolga e acaba caindo, sempre com Ellen ao seu lado.

Dia 3: Buddy vai para o deserto. Ellen diz que não viu nenhum animal por perto, então Buddy pergunta se ela já viu uma formiga correr e os dois apostam corrida, ele a pé e ela de jipe. Quando ele está a 120 Km/h aparece uma casca de banana no chão.

Dia 4: Buddy está na floresta com seu amigo Roger, que relembra um pouco dos velhos tempos. Ficamos sabendo que Roger mora em Hollywood e oferece a Buddy a chance de aparecer num programa de TV. Buddy aceita. No interlúdio, 7 quadros em uma página, a personagem misteriosa surge novamente, dessa vez sabemos que sua força física anormal é decorrente de um tipo de soro que ingere. No último quadro ele está invadindo a Divisão de San Diego dos laboratórios D.E.L.T.A.

Dia 5: Todos estão na sala para assistir ao programa que Buddy gravou na TV, mas é uma decepção, porque editaram sua participação evidenciando apenas as partes engraçadinhas e até apelidaram Buddy de Zoológico Humano. Típico das TVs.

Dia 6: Roger consegue o primeiro trabalho para o Homem-Animal, Buddy conta pra Ellen e ela pergunta porque ele está usando uma jaqueta por cima do uniforme. Ele responde que é meio constrangedor usar um uniforme colante e também porque ela tem bolsos para guardar documentos e dinheiro (porque ninguém pensou nisso antes?). Depois que ele se despede de Ellen e coloca seu fone de walk-man nos ouvidos (é, na época também não tinha discman, MP3, MP4, etc.), Ellen conversa com Trícia, sua vizinha e ex-mulher de Roger, e pergunta se o lance do Roger de empresariar Buddy é sério. Trícia não bota muita fé no ex-marido.

Novo interlúdio, um grupo de caçadores está nos arredores e não são do tipo que gostaríamos de ter como vizinhos. Chegando aos laboratórios D.E.L.T.A, Buddy é recebido pelo Dr. Myers, que na verdade esperava o Superman, mas chamou o Homem-Animal porque um assistente o tinha visto na TV. O Dr. Myers explica que estão desenvolvendo uma vacina contra a AIDS, fazendo experimentos com primatas. Buddy pergunta porque ele é o super-herói adequado para o caso e o Dr. Myers mostra então uma cena dantesca, vários macacos agonizando, mesclados numa massa de carne como se fossem barro manuseado por um artesão sem habilidade.

E assim termina o primeiro capítulo da saga do Homem-Animal, mostrando o tipo de trama que tornaria Grant Morrison famoso: enredos complexos cheios de sub-plots, fatos aparentemente isolados, mas que no futuro se encaixarão de forma perfeita, personagens bizarros, controvérsia e muito conteúdo em poucas páginas.

Não serei tão detalhista nas próximas histórias, apenas quis mostrar um pouco da percepção que tive ao ler a primeira história desse personagem desconhecido, porém cativante. As próximas narrativas serão mais sucintas até para gerar curiosidade entre aqueles que não as conhecem e nostalgia naqueles que, como eu, conhecem as aventuras de Buddy Baker. Até mais.

Ver Segunda Parte

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